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O lado sério da nossa “Palhaçada”

Efeitos da intervenção artística no idoso com ou sem demência
(Artigo publicado na revista 4Seniors)

Quando eu era pequeno tive contato com meus avós. Um contato tão forte que não consigo me desligar dele mesmo depois de mais de vinte anos que os perdi.
Meu avô me levava da escola para casa todas as tardes. Mas antes disso, eu almoçava com ele e minha avó. Em casa, estava a espera a outra avó que viva connosco. 
Esta breve introdução talvez pareça dispensável para o que vou dizer neste texto, mas acontece que os meus 3 avós com quem convivi padeceram de males diferentes. Males que hoje, no meu dia-a-dia nos lares, centros de dia e outras instituições eu encontro.
Eu levava sempre meu violão comigo onde quer que eu ia. Inclusive para fazer serenatas para os meus avós. A primeira vez que toquei violão para meu avô, era uma valsa dos anos 20 (do século passado). Meu avô tomou a guitarra das minhas mãos e tocou a mesma valsa. Detalhe: Ninguém da família sabia que 50 anos atrás ele tinha aprendido a tocar e depois desistiu de continuar. Mas o que eu fiz naquele momento, foi acessar a memória de uma idade ativa dele. Ele, que já se encontrava em situação de demência. Eu nem sabia o que era demência naquela época, assim como não sabia nada. Mas eu amava meu avô. 
Quando um artista troca o palco por um hospital, por um lar, por um centro de dia, por uma cidade que ruiu com um terremoto, ele faz por uma necessidade da alma. Claro que o artista é um profissional como qualquer outro e precisa ser remunerado pelo seu trabalho. Isso é inquestionável como um talhante, um advogado ou um piloto de avião também não trabalham gratuitamente.
Nietzsche já dizia que “a arte existe para que a realidade não nos destrua”. O artista traz um estímulo diferente, complementar, que não pretende roubar nenhum lugar dentro de uma instituição. Porque onde ele ocupa é um lugar que ainda não existe, está a ser criado.
Um médico me disse uma vez que um paciente feliz é mais fácil de ser tratado. Talvez seja verdade. Uma vez que estamos num estado positivo, nossas células percebem que há vida mais além e que vale a pena lutar para ganhar mais um dia. O paciente com demência vive o momento, o agora. Para muitos, tudo é novidade, tudo é inédito. O palhaço, que é a arte que escolhi para me expressar artisticamente, também é assim. Vive o momento, o agora. Portanto, aqui já temos uma grande ligação a ser explorada. O palhaço é um profissional da falha, alguém que pede sempre ajuda e quer ser aceite. Sendo assim, ele pede ajuda ao paciente com demência e este se sente com poder, com capacidades de ajudar alguém. Sente-se útil. Assim, temos aqui dois hemisférios que se juntam e criam um mundo que completa a realidade. 
E quem disse que estas técnicas não funcionam também com pessoas não diagnosticadas com demência? Claro que funciona!
Juntamente com a técnica do palhaço, estão muitas outras como a música, a dança… É tão emocionante ouvir de uma senhora um pedido de uma dança ou, de repente, criarmos um grande coro com todas as vozes da sala de convívio a cantarem “Besame mucho” ou “Rien du Rien”. 
É importante cuidar do corpo, como nossos queridos cuidadores, auxiliares, enfermeiros, médicos e outros profissionais cuidam. Mas é essencial cuidar daquilo que permanece para sempre: a alma. Alma vem da palavra “anima”, a mesma palavra de onde deriva “ânimo”. Então, se alguns que me lêem não valorizam a alma, certamente não poderão valorizar o ânimo.
Os artistas trazem a oportunidade de redimensionar o espaço, transformar o ambiente, estimular por outros meios, para que os outros cuidados cheguem de forma mais harmoniosa.
Este ano (2018) a Câmara de Mafra ofereceu aos principais lares e centros de dia do seu concelho, visitas dos Srs. Palhaços do programa Rugas de Riso, que é o primeiro programa de visitas regulares a idosos do nosso país.
Ao chegarmos, a primeira coisa que ouvimos dos diretores técnicos é o questionamento se nossa visita funciona realmente ou não, se palhaço não seria algo para crianças…  
Mas quando surgimos com nossos figurinos e instrumentos, vê-se a resposta brotar nas ações e nas reações. Funciona. Porque nossa principal preocupação é NÃO, NUNCA, JAMAIS INFANTILIZAR quem não é criança. Porque há respeito e há a real importaciação das qualidades que ainda permanecem e transparecem no olhar, no toque e nas palavras dos nossos queridos idosos.
O artista não julga. O artista não espera nada em troca. O artista dá elementos para que a vida ganhe vida, mesmo onde a esperança é quase microscópica.
O profissional de saúde sabe que tem no artista um aliado. Claro, desde que o artista saiba utilizar as suas técnicas de forma adequada. Por isso eu sou um defensor da formação dos artistas que eu dirijo. Digo sempre nas formações que dou aqui e em tantos países por onde passo:

Amor, sim. Mas é preciso ter técnica.

FernandoTerra (diretor artístico – Rugas de Riso)

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